Publicado em Poematizese

Helena

“Hoje é um dia daqueles.”

Eu saí do escritório, fechei a porta e apertei o botão do elevador. Parei na frente da porta com as pastas, cadernos, pranchetas na mão. O elevador chegou, a porta se abriu. Vazio. Entrei e apertei o botão. Quando me virei o enorme espelho na minha frente revelava a criatura estrangeira do meu próprio corpo que me tornei. Esse cabelo bagunçado não é penteado há dias, essas olheiras nem parecem olheiras, fui socada numa luta?

Tudo bem, estou sem férias há quase dois anos, devo admitir. Mas isso no meu ambiente de trabalho é tão comum que nem devo reclamar. A porta se abriu e lá vou eu, sair do prédio e tranquilo para a grande multidão.

A primeira coisa que você se atentar ao sair do trabalho na hora do “rush” numa metrópole é com os seus pertences. Eu esqueci desse detalhe, trouxe mais coisas do que eu devia, mas 18 andares é demais para subir de volta.

Eu não acreditei quando pisei o pé na calçada. Hoje a rua estava muito mais cheia do que qualquer dia que eu me lembre na vida, e o pior, eu não faço ideia do porquê. Nem natal na 25 de março tem tanta gente!

Fechei os olhos e respirei fundo. Apertei minhas coisas contra o corpo e virei a bolsa para frente. Abri os olhos e comecei a caminhar sentido o metrô, porque eu queria muito ir embora. Daqui até o metrô são 15 minutos andando. Então eu caminhei por exatos 7 minutos quando eu ouvi os gritos.

Todos os jovens que eu pude me lembrar estavam lá, gritando no meio da rua. Não eram apenas eles, talvez a rua inteira estivesse preenchida por essa gente, mas de onde eles vieram?

Um barulho gigantesco se fez à minha esquerda e o gás preencheu o ar. Eu estava rodeada de pessoas, no entanto, não conseguia ver ninguém, apenas seus gritos e vozes falando, buscando, procurando. Foi tão rápido que eu não consegui raciocinar. Encostei na parede. Abri os olhos, que estavam ardendo, e vi aqueles homens espancando os pobres garotos.

Eu não poderia descrever a cena porque foi a coisa mais chocante que já vi na vida. Meu coração disparou, comecei a tremer e chorar, derrubei tudo no chão, abaixei, juntei, peguei e corri para o metrô. Mas não dava pra passar. Eu sentei na porta de uma loja fechada e fiquei em choque não sei por quanto tempo.

Uma moça chegou perto de mim e perguntou se estava tudo bem, mas o rosto dela era tão estranho que eu me senti num pesadelo, do qual eu queria despertar imediatamente. Passou um, dois, três, cinco, dez, quinze minutos e eu continuava inerte.

Eu acordei no outro dia dentro de um hospital. Eu não lembrava de absolutamente nada, mas todas as vezes que eu fechava os olhos, eu sentia meu coração apertado e imagens apareciam em flashes.

Passou-se três dias até eu me lembrar do que tinha acontecido. Agora eu me lembrava daquele homem cruel quebrando a costela do garoto, gerando aquela fratura exposta que até esse instante me dá náusea.

Eu não pude voltar a trabalhar, o médico meu deu uma licença de uma semana, dita cuja, que eu vou usar. Decidi vir para o interior para esquecer aquele cenário absurdo. Hoje eu comecei a fazer uma trilha que me trouxe até aqui no topo da pedra.

Então, alguma coisa aconteceu.

Autor:

Metamorfose ambulante, ♥

2 comentários em “Helena

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